AS VIAGENS DE GULLIVER DE JANSEN E LOBATO
Adriana Silene Vieira – Unicamp
Nosso trabalho analisa as primeiras adaptações brasileiras da obra Gulliver’s Travels (1826), de Jonathan Swift. A primeira foi publicada por Carlos Jansen em 1888 e a segunda por Monteiro Lobato em 1937.
Temos por objetivo observar as alterações feitas pelos dois adaptadores, cotejando-as com o texto original, lembrando o fato de estes terem em vista o leitor infantil brasileiro, para quem é vertido por eles um clássico inglês.
1. AS VIAGENS DE JANSEN
1.1. Informações que emolduram as Viagens de Swift
O texto Gulliver’s Travels[1]é dividido em quatro livros, referentes às quatro viagens do herói. Entre estas, Jansen adaptou apenas as duas primeiras, “Viagem a Liliput”, em que Gulliver é um gigante num mundo de pequeninos e “Viagem a Brobdingnag”, em que o protagonista é um pequenino num mundo de gigantes. Estas duas primeiras viagens parecem ter sido as mais populares entre os leitores europeus, talvez pelo nonsense, e pela presença de gigantes e pequeninos, recorrentes nos contos de fadas europeus, como por exemplo o conto “O pequeno polegar”[2].
Tendo Jansen traduzido os dois primeiros livros de Gulliver’s Travels, nos detivemos apenas na análise do primeiro, “Viagem a Liliput”. Seu texto tem como título As viagens de Gulliver a terras desconhecidas ao qual seguem as informações “Redigidas para a mocidade brasileira por Carlos Jansen, do Imperial Colégio D. Pedro II. [3]
O texto de Jansen mantém o mesmo número de capítulos do texto de Swift, porém retira o resumo que abre cada capítulo do texto. Jansen retira também os trechos iniciais da obra que são: “Advertência”, “Carta do capitão Gulliver a seu primo Sympson” e também “Do editor para o leitor”.
Ao retirar estes trechos e publicar sua adaptação com o prefácio de Rui Barbosa, Jansen cria outro contexto para as aventuras de Gulliver. O prefácio de Rui Barbosa, que apresenta um pouco da vida e obra do autor, arrola as críticas feitas a sua obra ao mesmo tempo em que o defende das mesmas. Seus comentários sobre a importância da obra para os jovens parecem ser recomendações destinadas aos pais dos leitores esperados, prováveis compradores de tal adaptação. Outro fato a destacar é que Jansen, muitas vezes desmembra os grandes parágrafos do outro. Seu texto, juntamente com o prefácio, nos indica uma imagem de leitor. O que mais chama nossa atenção, porém, são os trechos em que Jansen não é fiel à narrativa de Swift, ou seja, trechos que retira ou modifica.
São retirados do texto os trechos de escatologia, referências a sexo e também algumas sugestões que pudessem de alguma forma chocar ao leitor. São feitos também alguns poucos acréscimos, provavelmente com propósitos educativos.
1.2. A escatologia
Entre as modificações feitas por Jansen no texto de Swift, a que mais se destaca é a omissão da referência, presente no texto original, às partes íntimas ou secreções corporais do corpo do gigante. A escatologia aparece em vários trechos do original e é omitida completamente por Jansen, com exceção do trecho a seguir, em que, no original, Gulliver apaga o fogo do palácio da rainha de Liliput com sua própria urina:
(...) this magnificent palace would have infallibly been burnt down to the ground, if, by a presence of mind, unusual to me, I had not suddenly thought of an expedient. I had the evening before drank plentifully of a most delicious wine, called glimigrim (...) which is very diuretick. By the luckiest chance in the world, I had not discharged myself of any part of it. The heat I had contracted by coming very near the flames, and by my labouring to quench them, made the wine begin to operate by urine; which I voided in such a quantity, and applied so well to the proper places, that in three minutes the fire was wholly extinguished; and the rest of that noble pile, which had cost so many ages in erecting, preserved from destruction. [4]
Observamos que Jansen não retira completamente a escatologia, mas modifica a maneira como Gulliver apaga o fogo.
De repente lembrei-me que perto da cidade havia um immenso reservatorio, uma cloaca gigantesca, para a qual corrião encanadas todas as immundicias da capital. Na falta de agua limpa, lancei mão do liquido daquelle reservatorio; sem importar-me com o máo cheiro, corri a encher o meu chapéo, e, despejando seu conteúdo nas chammas, consegui abafar promptamente o fogo.[5]
Como podemos observar, a solução de Jansen dá outro sentido para o episódio. Com essa mudança, o texto de Jansen mantém a idéia do “desrespeito” da personagem para com o palácio real. Desse modo, o texto de Jansen, que havia retirado a escatologia de outros trechos, evita referir-se ao corpo da personagem, mas deixa as coisas ainda piores.
Outro episódio que faz referência ao corpo de Gulliver no texto original é aquele em que os pequeninos desfilam entre as pernas de Gulliver. No original o gigante tinha as calças furadas, e os pequeninos quando passavam entre suas pernas, não deixavam de olhar:
This body consisted of three thousand foot, and a thousand horse. His Majesty gave orders, upon pain of death, that every soldier in his march should observe the strictest decency, with regard to my person; which, however, could not prevent some of the younger officers from turning up their eyes as they passed under me. And, to confess the truth, my breeches were at that time in so ill a condition, that they afforded some opportunities for laughter and admiration. [6]
O texto de Jansen resolve então “remendar” estas mesmas calças, que aparecem “intactas” em sua versão:
Poucos dias depois (...), o rei passava revista ao seu exercito em ordem de marcha, e teve a lembrança de ordenar-me que abrisse as pernas, como o colosso de Rhodes, afim que as tropas desfilassem por esta especie de arco do triunfo.(...)
Apoz a cavallaria vinha a artilharia com peças, carro de munição, bombas e granadas. Quando as peças me desfilárão entre os pés, os artilheiros fizerão fogo com grande estrondo, pondo as minhas meias e calças em risco imminente de serem chamuscadas. [7]
Sendo assim, podemos ver as modificações de Jansen como uma maneira de moldar o texto e a visão de mundo nele expressa para apresentá-lo à criança. Seu trabalho condiz com o prefácio de Rui Barbosa, em que o pensador afirma que o texto de Swift é bom, “com exceção de certos lances”, e que sua leitura não levaria a “práticas viciosas”.
Segundo autores como Noel Perrin em seu texto Dr. Bowdler's Legacy[8]Gulliver’s Travels, tornou-se mais popular na Inglaterra durante a Era Vitoriana[9], tendo recebido cortes justamente nos trechos censurados por Jansen. Desse modo, os propósitos doe educadores brasileiros assemelham-se ao puritanismo da Era Vitoriana inglesa, época em que até mesmo os textos de Shakespeare recebiam versões censuradas.
O texto de Jansen também retira toda a sátira presente no texto de Swift, deixando de mencionar as causas das guerras entre os liliputianos e seus vizinhos que estariam representando as disputas políticas e religiosas na Inglaterra da época de Swift.
1.3. A família e o sexo
Observamos que a relação de Gulliver com sua esposa é apresentada por Jansen de forma diferente do texto original. Esta diferença já aparece no início dos dois textos, na razão de Gulliver haver se casado. No texto original ele se casa para melhorar sua condição financeira.
O Gulliver de Jansen é amoroso e deticado a sua família. Seu amor e sua dedicação pela família são muito diferentes do que pode ser visto no texto de Swift. Lembramos que no último livro de Gulliver’s Travels, - “esquecido” pelos adaptadores que só apresentam os dois primeiros livros -a personagem afirma que, ao retornar a sua casa no final de sua viagem, sente nojo de sua mulher, pelo fato de ela ser uma yahoo, ou seja, um ser humano semelhante aos humanos selvagens que habitavam o país dos cavalos.
No texto de Swift, vemos várias críticas à sociedade e à visão de família, o autor afirma, por exemplo, que os pais não precisarem tomar conta dos filhos que geraram em um momento no qual esta seria sua última preocupação:
Their notions relating to the duties of parents and children differ extremely from ours. For, since the conjunction of male and female is founded upon the great law of nature, in order to propagate and continue the species; the Liliputians will needs have it, that men and women are joined together like other animals, by the motives of concupiscence; and that their tenderness towards their young, proceedeth from the like natural principle: for which reason they will never allow, that a child is under any obligation to his father for begetting him, or to his mother for bringing him into the world; which, considering the miseries of human life, was neither a benefit in itself, nor intended so by his parents, whose thoughts in their love-encounters were otherwise employed. [10]
O autor compara a união dos seres humanos com a dos animais e afirma que o fato de ser trazida ao mundo não seja um benefício para uma criança. Estas seriam provavelmente noções chocantes para constarem em um livro para crianças e adolescentes.
Com relação a este aspecto da não responsabilidade dos pais, vemos uma semelhança com a “Modesta Proposta” [11], em que Swift sugere que as crianças pobres da Irlanda sejam vendidas como alimento para os nobres.
Assim, podemos observar que as idéias presentes na obra de Swift sobre a instituição familiar são totalmente diferentes daquelas passadas na adaptação de Jansen.
1.4. Educação
No texto de Swift a personagem Gulliver, ao relatar a forma de escrever dos liliputianos, afirma que:
(...) their manner of writing is very peculiar; being neither from the left to the right, like the Europeans; not from the right to the left, like the Arabians; nor from up to down, like the Chinese; nor from down to up, like the Cascagians; but aslant from one corner of the paper to the other, like ladies in England.[12]
Observamos que Jansen, com outros propósitos, troca o tipo de comparação feita por Gulliver, levando-o para o contexto de seu leitor.
(...) estranhei o seu modo de escrever. Não traçavão as suas letras da esquerda para a direita como nós; nem da direita para a esquerda como os hebreus, nem tão pouco de alto para baixo como os chins; escrevião enviesado, de um canto do papel ao opposto, como os nossos alunmos relaxados que têm preguiça de pautar a sua plana.[13]
A crítica feita às mulheres remete-nos aos costumes das mulheres do século XVII que muitas vezes sabiam ler e não sabiam escrever, além de nos remeter ao fato de que suas leituras eram consideradas muitas vezes prejudiciais. Assim, a transposição de Jansen de que quem escreveria mal seriam os meninos “relaxados” traz a situação para um novo contexto ao mesmo tempo em que mantém a crítica.
Com relação às anotações de Gulliver sobre a educação recebida pelas crianças em Liliput, vemos vários detalhes do texto original, resumidos no texto de Jansen. Em Jansen vemos apenas as seguintes informações:
A educação das crianças é acertadissima, precendo-se com a espartana. Os pequenos são acostumados ás intemperies, inculcando-se-lhes ao mesmo tempo as virtudes da justiça, do valor, da modestia, da brandura e da piedade. Acostumào-os á actividade, alimentão-os com comida sadia, simples e escassa, instruindo-os nas sciencias e bem assim na esgrima, natação, equitação, e em todos os exercicios do corpo. Deste modo há poucos doentes, e os medicos não fazem muito negocio em Liliput.[14]
Desse modo os preconceitos de época expressos por Swift e são evitados na versão janseniana. Talvez por serem considerados como supérfluos pelo adaptador por fazerem parte de um outro contexto e serem interessantes a um outro público.
Observamos assim que, ao resumir o trecho em que Gulliver relata sobre a educação dos liliputianos, Jansen deixa de mostrar a ironia de Swift em relação à educação das crianças e ao comportamento e seus pais em relação à situação. Desse modo, mostra apenas o lado positivo da educação liliputiana.
2. GULLIVER’S TRAVELS À MODA LOBATIANA
Tomemos agora a adaptação lobatiana de Gulliver’s Travels. Seu texto, intitulado As Viagens de Gulliver ao paiz dos homenzinhos de um palmo de altura, [15] poderia ser chamado de condensação, se pensarmos desse termo segundo a definição do professor John Milton[16], que afirma ser a condensação um tipo de texto de “tradução” dirigido a um público leitor composto por crianças e mulheres. Desse modo, estabelece que um dos critérios da adaptação seria a preocupação com a recepção.
Tendo por princípio o fato de Lobato ter sugerido a Godofredo Rangel um modelo de tradução que se guiasse pelo trabalho de Jansen, reescrevendo-o, vejamos agora a sua tradução de Gulliver’ Travels para saber se guarda alguma semelhança com a outra.
Ao tomarmos a adaptação lobatiana, observamos logo de início as diferenças entre ela e a de Jansen. Temos, na adaptação lobatiana, um narrador de terceira pessoa que conta ao leitor a história de Gulliver, enquanto no texto original e a na adaptação de Jansen quem narra a história é a própria personagem.
Um dos grandes escritores ingleses, de nome Swift, conta a historia inteira de Lemuel Guliver, da qual vamos dar aqui um breve resumo. [17]
Essa introdução já parece ser uma chave para o estudo da adaptação lobatiana. Temos uma informação inicial sobre o autor do texto: o narrador afirma que o escritor conta a história inteira. Com isso, o texto de Lobato aproxima a escrita da oralidade, com o ato de contar histórias. Afirma também que fará um “breve resumo” da mesma, justificando, assim, não ter a pretensão e nem a intenção de ser fiel ao original. Notemos que se no texto inglês temos uma narrativa em primeira pessoa – um suposto viajante narrando suas aventuras – no texto lobatiano temos um narrador contando a história que um outro narrador, Swift, havia contado.
A tradução de Lobato abrange apenas o primeiro dos quatro livros de Gulliver’s Travels e, além disso, faz um resumo da história. Com relação aos capítulos, examinamos que, enquanto a adaptação de Jansen mantém o mesmo número que o original, que são oito, a de Lobato desmembra estes em doze capítulos. Só com esses detalhes já podemos deduzir que Lobato não baseia seu texto no de Jansen. Além disso, vemos que alguns trechos do texto original, retirados por Jansen aparecem no texto lobatiano.
Os principais cortes feitos por Jansen no texto de Swift são as referências à escatologia. Estes trechos são retirados também por Lobato.
Um dos trechos mais importantes da parte I das Viagens, aquele em que Gulliver apaga o fogo do palácio de Liliput com a própria urina, apresenta outra solução no texto lobatiano que é, nesse ponto, mais feliz que o texto de Jansen:
Uma ideia lhe veio: o seu chapéu de tres bicos. Voltando ao palacio com aquela chapelada d’agua, despejou-a no fogo, apagando-o incontinenti. Mas foi agua demais, de modo que inundou o quarto da rainha até á altura das janelas — e lá estava a rainha e seus reais filhotes a debaterem-se com desespero. Iam afogar-se. Guliver teve de, cuidadosamente, pesca-los um por um.
Este fato foi de muita consequencia na vida de Guliver, visto que as leis de Liliput consideravam crime de lesa-majestade o fato de alguem tocar, por mais levemente que fosse, na pessoa sagrada da soberana e de seus pimpolhos. E para tal crime a pena era uma só: a morte.[18]
Com relação à família e ao sexo, o texto de Lobato não traduz os comentários de Gulliver. Seu texto aborda a questão da educação das crianças de Liliput, tomando do texto de Swift a informação de que os pais não se responsabilizam por elas, deixando-as aos cuidados do Estado.
As crianças eram colocadas em creches ainda quando bebês, e os pais só vinham ve-las duas vezes por ano — e se lhes traziam brinquedos e doces foi coisa que o nosso heroi não pôde perceber. Os professores ficavam todo o tempo de guarda ás crianças durante tais visitas. [19]
A diferença entre os dois textos mostra a leitura diferenciada que Lobato faz do texto e o que deseja sublinhar.
O texto de Jansen deixa de citar a referência à leitura; vemos que o incêndio do palácio havia sido provocado pelo descuido de uma dama, que adormece lendo um romance. O trecho aparece em Lobato:
— Incendio no palacio! Uma dama de honra da rainha adormeceu em meio a uma leitura e deixou a vela acesa. A vela pegou fogo num cortinado, e o fogo alastrou-se por uma ala toda do palacio.. [20]
O trecho do texto de Lobato em que a dama adormece enquanto lê um livro não parece ter o mesmo sentido expresso em Swift. Se o texto de Swift aparece como uma crítica ao comportamento dos leitores de romance, no texto lobatiano essa referência pode ser lida, extratextualmente, como positiva, tendo em vista a grande preocupação de Lobato – como editor, tradutor e escritor – com a disseminação da leitura e com o aumento do público leitor de contos, romances, etc. Assim podemos pensar que essa transcrição dá um outro sentido, positivo, ao trecho. Desse modo, leitor, época e contexto não devem ser ignorados ao pensarmos nessa adaptação.
Embora faça censuras a alguns trechos do texto de Swift, Lobato não deixa de apresentar a sátira em relação à guerra e à estupidez dos liliputianos, fato que não aparece em Jansen. Lobato coloca a questão da guerra entre Liliput e Blefuscu, assim como as facções internas que abalavam o país:
— Oh, o motivo parecer-vos-á bem futil, respondeu o fidalgo. Certa vez em que o avô do nosso atual soberano estava á mesa, resolveu ele mesmo partir um ovo — e partiu-o do lado mais grosso. Com muita infelicidade, porém, visto que se feriu na casca, Em consequencia, foi passada uma Lei ordenando ao povo que só partisse ovos do lado mais fino. Essa lei originou a luta. Uns aceitaram-na e cumpriram-na, só quebrando ovos pelo lado mais fino; mas outros, de espirito rebelde, teimaram em quebra-los pelo lado mais grosso. Daí uma serie de prisões e castigos rudes, até que os rebeldes preferiram fugir para a ilha vizinha a cumprir a lei. Lá intrigaram, fazendo que o rei de Blefescu declarasse guerra a Liliput. Nessa luta perdemos muitos navios e muitos soldados valentes. [21]
A côrte sempre estivera dividida em duas fações hostis. A causa da divergencia era se deviam usar sapatos de salto alto ou baixo. Os partidarios do salto algo odiavam os partidarios do salto baixo. Não se cumprimentavam, não se sentavam á mesma mesa, não se poupavam os maiores remoques e calunias. Guliver sorria de tanta infantilidade.![22]
Apresentamos apenas alguns trechos, mas neles podemos ver que Lobato mantém um pouco da ironia do texto original. Enquanto o texto de Jansen abstém-se de mencionar o motivo da guerra entre liliputianos e blefuscuanos, restringindo-se à informação de que estavam em guerra, o texto de Lobato, que é, em muitas partes, bastante conciso, deixa de lado a concisão para colocar os motivos geradores das guerras, expressando também um juízo ao afirmar que eram fúteis, que não passavam de bobagens. Dessa maneira, coloca a referência à guerra iniciada pela proibição de certo modo de quebrar ovos e também às leis sobre o uso de sapatos altos ou baixos. Assim, a crítica à imbecilidade da sociedade liliputiana (que em Swift faz referência à sociedade inglesa) mantém-se no texto de Lobato.
Desse modo, nosso estudo das primeiras adaptações brasileiras de Gulliver’s Travels serve como uma reflexão sobre as duas diferentes épocas e sobre a imagem de leitores criada por esses adaptadores. Assim, há um fator histórico e um fator ideológico que diferencia os dois trabalhos, com 49 anos de diferença. Outro fator importante é a tradução lobatiana de Gulliver’s Travels, além de trazer algumas pistas sobre seu método de trabalho, levanta questões como a de uma provável influência do texto de Swift na composição dos textos infantis de Lobato, como, por exemplo, seu texto A chave do Tamanho (1943), que trata da diminuição dos seres humanos.
Referências Bibliográficas:
MILTON, John. “A tradução de romances ‘clássicos’ do inglês para o português no Brasil”. In: Trabalhos de Lingüística Aplicada. Campinas, (24): 19-33, Jul./ Dez. 1994.
PERRIN Noel. Dr. Bowdler's Legacy: A history of expurgated books in England and America. New York : Atheneum, 1969, p. 224-228. (disponível on-line na homepage www.gulliver.com)
SWIFT, J. As viagens de Gulliver a terras desconhecida: redigidas para a mocidade brasileira por Carlos Jansen, do Imperial Colégio D. Pedro II. Rio de Janeiro, Laemmert, 1888.
SWIFT, J. Viagem de Gulliver ao paiz dos homenzinhos de um palmo de altura. São Paulo, Cia Ed. Nacional, 1937.
[1] O texto em inglês que tomamos é uma edição da coleção Wordsworth Classics, “complete and unabridged”.
[2] Talvez os contos de fadas já fossem conhecidos pelos leitores brasileiros através das traduções portuguesas vindas ao Brasil. Observamos que as primeiras traduções brasileiras para esses contos são as de Fiqueiredo Pimentel, Contos da Carochinha (1894), Histórias da avozinha (1896) e Histórias da baratinha (1896).
[3]SWIFT, J. As viagens de Gulliver a terras desconhecida: redigidas para a mocidade brasileira por Carlos Jansen, do Imperial Colégio D. Pedro II. Rio de Janeiro, Laemmert, 1888. As próximas citações da tradução de Jansen serão por nós denominadas apenas como “Jansen”.
[4] SWIFT, Op. Cit., p. 39 - 40.
[5] Jansen, Op. Cit. p. 74-5. A ortografia do texto original será por nós mantida.
[6] SWIFT, p. 29. Grifos nossos. O crítico literário John Milton, em seu artigo “A tradução de romances ‘clássicos’ do inglês para o português no Brasil” (Trabalhos de Linguística Aplicada, Campinas, Jul/Dez, 1994), comenta sobre algumas adaptações de Viagens de Gulliver. Em seu texto, afirma que: “As Viagens de Gulliver, da Melhoramentos, corta todas as referências escatológicas de Swift. Ao contrário, As Viagens de Gulliver, de Clarice Lispector, mantém os episódios em que Gulliver é obrigado a aliviar-se dentro da casa em Liliputia, em que urina em cima do palácio para apagar o incêndio. A cena, na qual o exército da Liliputia tem que desfilar embaixo de suas pernas e olha para cima para ver sua calça rasgada, é até ilustrada. (p. 25-6)
[7] Jansen, Op. Cit., p.47-8.
[8] Noel Perrin. Dr. Bowdler's Legacy: A history of expurgated books in England and America. New York : Atheneum, 1969, p. 224-228. (disponível on-line na homepagewww.gulliver.com)
[9] “if anything it grew more popular in Victorian times. Gulliver went through about sixty editions from the time it was published in 1726 until 1800 and it went through a hundred and fifty more between 1800 and 1900. But while the eighteenth-century editions were all complete, something over half the nineteenth-century editions were bowdlerized. So have many been in the twentieth century, including the one introduced by Howells. (This detail does not emerge in his preface.) There are still expurgations in print now.”Ibidem.
[10] Swift, Op. Cit., p. 43.
[11] “Uma modesta proposta”, In: SWIFT, J. Panfletos satíricos, p. 491-509.
[12] Swift, Op. Cit. p. 41.
[13] Jansen, p. 78-9.
[14] Jansen, p. 82.
[15] SWIFT, J. Viagem de Gulliver ao paiz dos homenzinhos de um palmo de altura. São Paulo, Cia Ed. Nacional, 1937. Manteremos a ortografia do texto original. As próximas citações do referido texto serão por nós denominadas apenas como “Lobato”.
[16] MILTON, John. “A tradução de romances ‘clássicos’ do inglês para o português no Brasil”. In: Trabalhos de Lingüística Aplicada. Campinas, (24): 19-33, Jul./ Dez. 1994.
[17] Lobato, p. 5.
[18] Lobato, p. 43.
[19] Lobato, p. 38.
[20] Lobato, p. 42.
[21] Lobato, p. 30. Grifos nossos.
[22] Lobato, p. 36-7. Grifos nossos.